Os Alquimistas
São descritos como aqueles indivíduos que, através de complicadas operações alquímicas, transmutavam metais inferiores em ouro e prata. O propósito fundamental da alquimia era produzir ou encontrar a Pedra Filosofal, mais conhecida como elixir da longa vida, pó de projeção e tintura, e também referenciada como a antiqüíssima, a secreta ou desconhecida, natural, incompreensível, celestial, abençoada, e Sagrada Pedra dos Sábios, e, ainda, distinguida com outras denominações. A prova da posse da Pedra Filosofal era a capacidade do alquimista em transformar um metal grosseiro em ouro ou prata, ou seja, criar o ouro e a prata por meios artificiais. A transmutação de um metal qualquer em ouro ou prata era visto como marca de sucesso, mas o poder transformador residia na Pedra Filosofal, propriamente dita, que era o verdadeiro agente da transmutação material.
A grande arte do alquimista era, portanto, ativar um processo que transformaria uma primeira substância ou matéria-prima na Pedra Filosofal, e com a sua posse estaria apto a realizar a Magnum Opus [Grande Obra]. A tradição alquímica e a metalurgia sagrada estão repletas de exemplos e de explicações sobre as conquistas desses feitos gloriosos, contudo, o segredo da arte transmutatória jamais foi revelado publicamente. Sem sombras de dúvidas, os alquimistas que descobriram ou conheceram a famosa Pedra foram unânimes em guardar o segredo da chave iniciática com o selo do silêncio, e os muitos textos que foram escritos estavam [e ainda estão] permeados de contradições e termos obscuros, quando não repletos de declarações enigmáticas, enloquecedoras referências e segredos irreveláveis, ao que parece, para levar os adeptos a um grau mais além, ou para confundir totalmente àqueles que estavam abaixo do nível para o qual o texto foi escrito. Observe a fundamentação exposta por Michel Sendivogius, um dos que, sabidamente, realizou a Grande Obra: “É pedra e não é pedra; é chamada pedra por sua semelhança; primeiramente, porque seu minério é verdadeiramente pedra no princípio, quando é tirada das cavernas da terra: é matéria dura e seca que pode reduzir-se a pequenas partes e que se pode esmagar à maneira de uma pedra. Segundo que, depois da destruição de sua forma, que não é senão enxofre fétido, que é preciso antes tirar-lhe e, depois da destruição destas partes, que haviam sido composta e unidas pela natureza, é necessário reduzi-la a uma essência única, cozendo-a docemente segundo a natureza em uma pedra incombustível, resistente ao fogo e fusível como cera; o que ela não pode fazer senão retornando à sua universidade” [Michel Sendivogius, in A Nova Luz Química].
Assim, a Pedra Filosofal, nunca teve a sua verdadeira natureza revelada por nenhum dos alquimistas. Ela foi descrita como sendo a verdade, mais certa do que a própria certeza; o arcano de todos os arcanos; a virtude e eficácia divinas, que são ocultas dos tolos; a meta e o fim de todas as coisas sob o céu; o maravilhoso epílogo de conclusão de todos os labores dos sábios; a essência perfeita de todos os elementos; o corpo indestrutível que nenhum elemento pode ferir; a quintessência; o duplo e o vivo mercúrio que tem em si próprio o espírito celestial; a cura para todos os metais defeituosos e imperfeitos; a luz perpétua; a panacéia para todas as doenças; a gloriosa Fênix; o mais precioso de todos os tesouros; e o principal bem da Natureza, dentre outros qualificativos. O seu poder não era somente de ser um agente de transformação nos reinos físicos, mas também no reino espiritual, e o ouro produzido era mais que um simples metal, era, em verdade, um princípio filosófico: um poder que o verdadeiro Alquimista reconhecia e procurava representar como matéria-prima da sua arte.
A Grande Revelação
O termo alquimia originou-se do árabe ul-khemi, significando química da natureza ou ciência da natureza, e essa química ou ciência pode ser compreendida sob dois aspectos distintos: o terrestre e o espiritual. No aspecto terrestre ou material, o alquimista visava, tão somente, a transmutação de metais grosseiros em ouro ou prata, por um processo de enobrecimento do material inferior em consonância com as energias-astrais, o que implicava na dominação e controle do ciclo transmutatório: ferro-cobre-chumbo-estanho-mercúrio-prata-ouro. No aspecto espiritual, o objetivo visado era a transmutação do próprio alquimista, ou seja, o ciclo ferro-cobre-chumbo-estanho-mercúrio de sua personalidade é que sofreria mudanças radicais no crisol das experiências alquímicas até transformar-se no puro ouro espiritual. Neste contexto, o grande laboratório alquímico é o próprio Homem. Este artigo dedica-se, exclusivamente, à Alquimia Espiritual.
Antes de comunicar o grande segredo do conhecimento alquímico espiritual, desejo que analise e considere as palavras de Artephius endereçadas aos que procuravam a Pedra Filosofal. Disse ele: “Pobre idiota! Seria tu bastante simples para creres que vamos ensinar-te aberta e claramente o maior e o mais importante dos segredos, e tomar nossas palavras ao pé da letra?” Analise as palavras de Nicolas Flamel: “Eu te revelo que a nossa arte só é revelada pelo esforço e é cheia de mistérios e tu, pobre idiota, és tão crédulo que chegas a pensar que nós ensinaríamos aberta e claramente o mais importante e maior de todos os segredos, caso tomes ao pé da letra nossas palavras”. Considere e analise, agora, as palavras do Mestre Ascenso Saint Germain – o Hierarca da Era de Aquário: “O significado espiritual de alquimia é, simplesmente, composição do todo[all-composition], termo que pressupõe a existência duma relação entre o todo da criação e as partes que o compõem. Quando devidamente compreendida, a alquimia trata, portanto, do poder consciente de controlar mutações e transmutação no seio da Matéria e da energia, e até dentro da própria vida”. Por fim, vejam as minhas palavras, escritas há cerca de três transcorridos anos, quando discorri sobre Nicolas Flamel para os leitores do Jornal Egrégora: “Não seja idiota em tentar descobrir letra por letra e palavra por palavra o conteúdo dos textos alquímicos. Lembre-se, antes, que o estudo ao pé da letra mata, enquanto que o espírito e a reflexão vivificam”. Naquele artigo fiz a revelação que reproduzirei agora, mas à época, a mesma verdade foi apresentada da seguinte forma: A Pedra da Alquimia é 5 [9+5+4+5 = 23 = 5], o fogo secreto é 8 [5+4+5+8+7+9+1 = 39 = 12 = 3 + 9+5+4+2+1+2 = 23 = 5, e 3+5 = 8], e a matéria única e principal da Grande Obra é 8 [9+5+3+5+4 = 26 = 8]. De fato, agora entendo tratar-se de uma revelação incompreensível e que nada revelou.
Para fazê-lo coerentemente, hoje, declaro que estou movido por outros sentimentos e, devidamente autorizado, revelo o grande segredo procurado por muitos sábios e, quem tiver olhos para ver, que veja os números e as letras da Alquimia Espiritual: A Pedra Filosofal da Alquimia Espiritual é o sexo e o seu número é 5; o fogo secreto é a energia sexual e o seu número é 8; e a matéria única e principal da Grande Obra é o sêmen e o seu número é 8. Nestes exatos termos, a matéria-prima da Alquimia Espiritual é a energia seminal masculina e feminina combinados; o sal, o enxofre e o mercúrio; o Sol e a Lua no dizer dos alquimistas. O sêmen é o Mercúrio dos Mercúrios, que é a mesma água-viva contida nas glândulas sexuais e a Água Celestial mencionada nos vários Livros Bíblicos [v. Gn. I:1-2; Sl 23:1-6 e 104:3-6; Jr. 17:13 e Ap. XXII:1 e 17]. Sei que esse espaço é por demais exíguo para tratar com mais acuidade desse tema, ma não posso deixar de lembrar, ainda que de passagem, a maravilhosa Canção de Salomão [Cântico dos Cânticos], na minha concepção, um dos mais gloriosos poemas de amor escritos e com muitas informações sobre a alquimia espiritual e magia sexual oculta nas entrelinhas, principalmente onde Salomão exclama: “Quoe est illa quoe procedit sicut aurora consurgens, innixa super sponsum?” [Quem é aquela que surge qual aurora sobre seu esposo?].
Como já se disse alhures, “a pedra que os construtores rejeitaram” [Sl. 118: 22]; o ingrediente misterioso do universo, comum a todos os seres humanos; a magnésia universal fartamente manuseada por ricos e pobres todos os dias, a matéria encontrada no campo, na aldeia, na cidade, e em todas as coisas criadas por Deus; o Coagula e Solve; o Aleph da Cabala; o Alkaest dos Filósofos; a Força Kundalínica; a Água da Vida que mata toda a sede [e quem bebe dessa água jamais voltará a ter sede] é o presente de Deus aos homens, e o amor é a base desse presente Divino, constituindo a ascensão da mulher a satisfação maior desse amor. A energia sexual é a mais poderosa e sutil força que o organismo humano produz. Este é o resultado do sexo praticado corretamente e de acordo com a Lei. Aquele que não conseguir entender assim só conseguirá encher a cabeça de palavras, signos e alegorias extravagantes. Irmão! É necessário aprender a ver além das simples aparências, além da ilusão e da articulação das palavras, então e só então a Alquimia se apresenta não como simples arte ou ciência que ensina a realizar a transmutação de metais inferiores em metais nobres, mas como uma ciência sólida e verdadeira que ensina a conhecer o centro de todas as coisas, o que na linguagem esotérica se denomina “O Sopro Divino” que está presente na raiz da “Consciência do Eu”, onde cada parte é parte de um todo.
A título meramente ilustrativo reproduzo um relato de Eliphas Levi a propósito da harmonia do binário homem-mulher, o binário perfeito, onde a realização criadora do equilíbrio universal, a manifestação de toda idéia por toda forma e a identificação dos sexos se faz presente em um casamento verdadeiramente indissolúvel. O relato diz que, um dia, Cristo interrogado sobre a época de seu reino respondeu através destas misteriosas palavras: “Quando dois forem um, quando o que é interior for exterior e quando o homem com a mulher não forem mais nem homem nem mulher”. Este oráculo do Mestre não se encontra os Evangelhos; mas ele é relatado por um dos escritores apostólicos: o papa São Clemente [Eliphas Levi, in Curso de Filosofia Oculta, 1984, pág. 61], ou seja, Eliphas Levi conhecia este segredo mas evitou pronunciá-lo. Outro relato muito interessante de Eliphas Levi é o que narra uma das parábolas mais misteriosas do Mestre Jesus sobre “as dez virgens: cinco sábias e cinco loucas”, mas esta ficará para outra oportunidade.
O Triunfo Hermético
A meu juízo, o triunfo hermético consiste não no sucesso da transmutação de metais grosseiros em ouro e prata, por um processo de enobrecimento do material, mas na transmutação do próprio alquimista, ou seja, na transmutação dos metais grosseiros da personalidade no crisol das experiências pessoais até transformar-se no puro ouro do espírito. Tenho comigo que a Unidade de Deus se manifesta e se resume na unidade do homem e que Deus completa o homem pela mulher. Tenho comigo, ainda, que Deus, o Grande Alquimista do Universo, ao nos criar à Sua imagem e semelhança, colocou dentro de cada ser humano um grande laboratório alquímico, o maior e mais completo laboratório que se possa conceber, para que a encarnação Deus, Homem, Homem-Deus se realize na perfeição da harmonia homem-mulher. E, não é sem razão que a Flâmula Alquímica traga como divisa a célebre frase por demais conhecida dos maçons e dos rosa-cruzes – V.I.T.R.I.O.L. – como iniciais da fórmula iniciatória. A expressão Vitriol ou Vitríolo, traduzido como “Visitetis Interiora Terrae Rectificando Invenietis Occultum Lapidem, Veram Medicinam”, ou seja, “Visita o interior da Terra e por retificação descobrirás a Pedra oculta, Verdadeira Medicina”, explicada assim por Basílio Valentim: “Percorre as entranhas do corpo humano, e rectificando encontrarás [a pedra oculta] o conhecimento de si mesmo e o conhecimento do mundo”. A relação pode parecer meio forçosa, mas um estudo mais amoroso poderá revelar outras interpretações muito interessantes.
Meu Irmão! Com letras e números revelei o segredo da alquimia espiritual, o segredo dos dois Mercúrios que contêm as duas tinturas, a matéria-prima da Magnum Opus. Assim, o oculto se tornou manifesto, entrementes, declaro, para conhecimento público, que a este segredo tive acesso muito recentemente. A descoberta mudou significativamente minha vida e minha visão de mundo, e espero que possa emprestar novo significado à Sua, mas devo declarar, por dever de consciência, que outros já revelaram este segredo a seu modo e com outras palavras, mas o que o fez diretamente e com todas as letras foi Sérgio de Souza Carvalho, em sua obra “Tratado de Alquimia Gnóstica”, com o consentimento e autorização de membros da Grande Fraternidade Branca. O alquimista Alexandre Sethon, o Cosmopolita, por exemplo, já havia feito esta revelação de forma muito espirituosa, por engenhosa alegoria, quando discorreu sobre a purificação e a animação do Mercúrio: “hoc fiet” disse ele, “si seni nostro aurum et argentum deglutire dabis, ut ipse consumat illa, et tandem ille etiam moriturus comburatur”. Terminando por descrever o magistério nesses termos: “cinare ejus spargantur in aquam, coquito eam donec satis est, et habes medicinam curan di lepram”. O mesmo Cosmopolita disse que o Mercúrio é a sua “água”, à qual denominou “aço e ímã”, e acrescentou, para maior confirmação do que acabo de revelar através de operações literais e numéricas redutivas: “Si undecies coit aurum cum eo, emittit suum semen, et debilitatur fere ad mortem usque; concipir chalybs, et generat filum patre clariorem”. E por aqui encerro minhas revelações herméticas.
Conclusão
Meu Irmão, bem sei que você pode não acreditar no que acaba de ler, mas tudo ficará claro se bem refletires. Não quero e não devo forçar a superação dessa barreira espiritual pessoal. Entrementes, sei que os verdadeiros alquimistas e filósofos não desprezaram levianamente esta revelação importante da Divina Energia Criadora no Homem. E, para encerrar este articulado, almejo que entenda que somos filhos Deus, a Quem denominamos Grande Arquiteto do Universo, e que somos, como Ele, Sementeiras Divinas. E lembre-se! Entenderemos melhor o mundo quando entendermos a nós mesmos. Por fim, observe, quando tiver oportunidade, o Símbolo da Pedra Filosofal.
Bibliografia Selecionada
Tratado de Alquimia Gnóstica [Sergio de Souza Carvalho, Sol Nascente, São Paulo, s/d]; O Livro das Figuras Hieroglíficas [Nicolas Flamel, ed. Três, Biblioteca Planeta, vol. 16, Rio de Janeiro, 1973]; O Tesouro dos Alquimistas [Jacques Sodoul, ed. Hemus, São Paulo, 1970]; O Triunfo Hermético [Limojon de Saint-Didier, ed. L’Oren, São Paulo, 1972]; A Alquimia e seus Mistérios [Cherry Gilchrist, ed. Ibrasa, São Paulo, 1988]; A Tradição Hermética [Serge Hutin, ed. Pensamento, São Paulo, 1979]. Iniciação à Alquimia [Alberto Magno, ed. Nova Era, Rio de Janeiro, 2000].
*Luiz Gonzaga da Rocha – historiador. Presidente da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal; Membro da Academia de Letras, Ciências e Artes Maçônicas do Brasil e do CERAT. Críticas e sugestões: luizgros@brturbo.com.br.
NOTA: Permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.
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