domingo, 25 de março de 2012

Ética Maçônica

Ética Maçônica

Devo antecipar que o tema nunca foi das minhas preocupações intelectuais. Não que não seja um tema afeto às minhas atividades profissionais, mas é que, maçonicamente, nunca parei para avaliar o assunto. Em outras palavras: sou leigo, embora entenda que o discurso sobre ética no meio maçônico não deve ficar girado em torno de mesmices assentadas nas concepções individuais de cada um dos irmãos. O mínimo ideal seria que o discurso moralizante e a ética maçônica de que muitos falam e outros desejam, fosse como uma Fênix Árabe, a ave lendária que renascia de suas cinzas. Mas, não posso me furtar ao entendimento de que o pluralismo cultural dos irmãos e da sociedade, o assombroso desenvolvimento das áreas do conhecimento e do saber humano, e o barulho materialístico-consumístico das práticas comerciais e das relações humanas têm deixado muitos irmãos sem o referencial unificador de inspiração e de comportamento ético que historicamente foi exercido pelas religiões e pela metafísica filosófica. Portanto, tudo é perdoável.
O fio da reflexão que pretendo tecer é simples, desde que se entenda que “a ética é a teoria ou a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade”, ou seja, “ética é a ciência de uma forma específica de comportamento humano” ou, simplesmente, “a doutrina dos costumes”. O termo ética vem do grego ethos, que significa analogamente “modo de ser” ou “caráter” enquanto forma de vida adquirida ou conquistada pelo homem. A ética maçônica, paralelamente ao conceito geral de ética, é bem menos ampla e menos exigente. Tem por fundamento os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade como máxima no relacionamento humano, a concretização ou realização dos valores do homem iniciado maçom e observância das regras morais consuetudinárias ou inscritas nos rituais e regulamentos maçônicos.
Não dispõe a Maçonaria de um “Código de Ética” que possa constituir um compromisso de honra para os que aceitam ingressar em nossa Ordem, e todos sabem que, ao ingressar na Maçonaria, cada indivíduo traz consigo os valores do seu convívio social, suas concepções morais e éticas já elaboradas, o que pode provocar na convivência maçônica comportamentos aéticos, a exemplo das omissões, das disputas pelo poder, perseguições, malversação dos conhecimentos e da doutrina maçônica, excessos no uso da inteligência e da desinteligência e, as mais variadas formas de indisciplina e inadaptabilidades às regras maçônicas, causando o enfraquecimento do sentido de unidade do corpo social. E aí fico a me perguntar se seria o “Código de Ética”, caso existisse, plenamente seguido ou obedecido pela universalidade dos maçons? Teria a Maçonaria, enquanto instituição universal, mecanismos capazes de cumprir e fazer cumprir as regras éticas assinaladas nesse código? Tenho lá minhas dúvidas. Mas pensar que não funciona, não é, em verdade, uma atitude filosófica, nem ética e muito menos maçônica.
A singularidade da ética maçônica nos permite dar um passo à frente. Preliminares do simbolismo e dos instrumentos maçônicos, as atitudes e os gestos ritualísticos estão a demonstrar o caminho a ser trilhado pelo maçom. A eles aditem-se, ainda, as Constituições Gerais da Ordem, os Landmarks, as Leis e Regulamentos específicos das Lojas, então, aí temos quase que definidos um conjunto de regras de conduta válidos para todos os tempos e para todos os homens que adentraram pelos portais iniciáticos das cerimônias e ritualísticas maçônicas. E tudo isso faz parte de um tipo de comportamento efetivo, tanto dos indivíduos quanto das Lojas e das Potências Maçônicas de ontem e de hoje. E é a este conjunto prático-moral meio difuso a que se submete o maçom, sem muitas reflexões sobre ele. A ética maçônica, por assim dizer, é um comportamento pautado por normas que consiste em seu fim – o bem-estar social coletivo – visado pelo comportamento moral do qual faz parte o procedimento do indivíduo ou de todos os membros da Ordem.
O problema em sua saga ética e moral reside, basicamente, no que fazer ou em como se comportar frente a cada situação concreta do indivíduo na sociedade, se não existe um código de ética maçônico como escopo social que possa tipificar as condutas e registrar as violações às regras estabelecidas. Sei, e isto é comum, que em situação de tomada de decisão, os indivíduos se defrontam com a necessidade de pautar o seu comportamento por normas que julgam mais apropriadas ou mais dignas de serem cumpridas e é aí que as regras maçônicas vão para as laterais das regras sociais vigentes. Por conseguinte, na vida real, o maçom, como qualquer outro indivíduo ou ser social, ao defrontar-se com os problemas recorre, para resolvê-los, às normas reconhecidamente profanas, cumpre determinados atos, formula juízos e, muitas vezes, se serve de determinados argumentos ou razões para justificar a decisão tomada ou o ato praticado. E o faz, muitas vezes, totalmente em desacordo com as normas maçônicas.
Eis que chegou a hora de costurar os fios do discurso para que ele não fique como uma construção sem alicerces. Como exemplo, pode-se dizer que “o bem comum proposto pela maçonaria universal compreende o conjunto das condições sócio-política-econômica-cultural que permitam aos indivíduos, famílias e nações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” ou “fazer o bem sem olhar a quem”, que como problema teórico não se identifica com os problemas práticos dos seus adeptos, muito embora possam estar relativamente relacionados com a moral maçônica de promoção dos objetivos da Ordem.
A ética maçônica, não deve ser mera transcrição de um discurso irracionalmente ordenado das razões normativas, axiológicas e teleológicas presentes no cotidiano das sessões maçônicas cuja força espontânea de persuasão se enfraquece ante o quadro de crise histórica da sociedade atual. E, os maçons vanguardistas e adeptos de renovação não devem se conformar em saber – saber por saber – que a qualidade ética do ato humano, longe de medir um preceito, divino, natural, legal ou humano, depende da conformidade com a consciência e, que, o ato humano é bom ou mau na medida em que a autodecisão do maçom se conforma ou não com o que a consciência diz ser justo e reto. Neste particular é preciso determinar-se o que possa efetivamente vir a ser ética maçônica, a partir da qual se estabelecerão os padrões de comportamentos a serem observados por toda a comunidade dos iniciados maçons. Este é o trabalho a ser executado.
A instância fundamental de uma possível ética maçônica, deve ser alicerçada no fato de “que cada ser humano deva ser tratado humanamente”, instância similar à enunciada por muitas religiões e ordens iniciáticas: “o que você não quer que lhe seja feito não o faça aos outros”. E isto necessita ser, além de uma proposta, um discurso aberto e entendido por todos. Ficamos por aqui, e esperamos ter contribuído de alguma forma para a instituição de uma possível ética maçônica, entendendo que a nossa Ordem necessita substituir o anacrônico Código Penal por um atualizado Código de Ética.

*Presidente da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal e membro da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 24/Brasília-DF.
NOTA: Permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.

Maçom e Maçonaria

Maçom e Maçonaria

Introdução

Sabe o Grande Arquiteto do Universo quanto papel e tinta já foram utilizados para traçar e apontar o perfil do maçom e da maçonaria. E mesmo as mentes mais aguçadas parecem não se dar contas de que o retrato falado do maçom pouco condiz com o arcabouço idealizado como justo e perfeito. Como os fatos admitem variegadas considerações, assumo o risco de traçar estas linhas e submetê-las à consideração dos irmãos/leitores.
Neste artigo, pretendo abordar três tópicos interconectados. Em primeiro lugar, buscarei mostrar, conceitualmente, maçom e maçonaria. Em segundo lugar, apresentarei algumas considerações sobre a função [missão e liderança] do maçom e da maçonaria na sociedade. E por fim, tratarei de apresentar sugestões para formação e desenvolvimento da massa crítica maçônica institucional, apontando a necessidade peremptória da educação maçônica como esteio de uma Maçonaria forte.
Maçom e Maçonaria
Imagino que a indagação mais interior formulada por não-maçons e até mesmo por muitos maçons, seja sobre os conceitos de maçom e maçonaria. Procurando fugir dos conceitos usuais e que se alteram em cada fração de tempo, quero reafirmar um conceito antigo, onde se diz, com todas as letras, que a maçonaria é um terreno mental onde se defrontam todas as opiniões, todas as crenças, todas as idéias sérias e de boa fé, para discussão pacífica, e de cujo combate fraternal resultem novas verdades a juntarem-se às já descobertas, contribuindo, assim, para o incremento do espírito humano, e para renascer o bem-estar da humanidade [Chainé d’Union, 1889]. Nesse contexto, o maçom seria o ente/agente dessa conceituação e, filosoficamente, seria um crente desse estado de espírito. Por outro lado, os nossos rituais definem Maçonaria como sendo uma Instituição que tem por objetivo tornar feliz a Humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, e pelo respeito à autoridade e a religião de cada um. Neste conceito, o maçom seria, simplesmente, o membro da Ordem maçônica, seja ele ativo ou inativo, regular ou irregular, enfim, quero dizer: Maçom é o homem Iniciado na Ordem Maçônica.
Manoel Arão [História da Maçonaria no Brasil, p. 7], consubstanciando o pensamento de muitos livres pensadores, externou, desde meados da década de vinte do século passado, que o conceito de maçonaria, e por extensão, o conceito de maçom, não pode ter uma fórmula precisa de definição, por encerrar, em si, o princípio de perfeição absoluta que se contém no ente preexistente e fora do círculo dos nossos próprios conhecimentos e do conceito moral em que somos aptos a definir. Entendendo que a idéia de maçom e de maçonaria transcendia a nossa própria contingência que, por sua própria natureza, põe um limite nas relações de indivíduos a fenômenos e de maçom a maçonaria. Esse agregado de idéias filosóficas conduz a Fichte [J. G. Fichte, História da Maçonaria, p. 73/74], quando este, instruindo a Konstant, frisou que a Maçonaria existe em razão de si mesma, e que esta deve ser como é, parte constituinte do absoluto; proclamando o entendimento de que a Ordem dos Maçons existe para manter, para conservar a Maçonaria. Em seu entendimento, a expressão Maçonaria indica a associação, e esta não pode ser considerada fim a si própria, mas apenas meio, pois que a associação, para o fim prefixado, é apenas meio e não pode ser como é, no momento, em sentido absoluto, mas apenas sob as condições de determinada situação no mundo. O maçom neste emaranhado filosófico-conceitual seria aquele que se dispõe a integrar a grande coligação universal que é a Maçonaria.
Devo dizer, ainda, a título de mero esclarecimento, que o conceito de maçom pode ser compreendido em diversos contextos ou planos, e aqui quero me concentrar nos planos semântico [aquele onde os signos são conceituados com base em um contexto determinado = maçom nominal] e pragmático [aquele que materializa o relacionamento que se estabelece entre o signo e seus utentes = maçom real], para conceituar o maçom como alguém que foi iniciado em uma loja regular, justa e perfeita. E, parafraseando Francisco de Assis Carvalho [Xico Trolha], Antônio do Carmo Ferreira [Ducarmo] e outros, optei por conceituar Maçonaria como sendo o Centro de União dos Maçons.
Missão e liderança
Como é de todos sabido, a maçonaria enquanto Organização de Construtores Sociais exerceu forte influência na evolução dos povos civilizados, e no presente, lamentavelmente, assiste pacífica e silenciosamente, a falência do tecido social que lhe fornece o principal instrumento de sua ação social: o maçom. Adianto que a missão e a liderança da Maçonaria e de Maçons no processamento histórico da Humanidade é inconteste e indiscritível, o que dispensa maiores considerações. Neste artigo, pretendo considerar, discutir e apresentar meus argumentos em três cenários.
Preliminarmente, quero apresentar dois posicionamentos. Em primeiro plano, externar o entendimento de que a maçonaria nasceu para auxiliar os homens a viverem em harmonia; serem bons e honrados; acreditarem em Deus como Ser Supremo, Poderoso, Criador de todas as coisas; combaterem, sem tréguas, o fanatismo, a superstição, os vícios e a ignorância em todas as suas formas, e ainda, para lutarem contra o nepotismo, o sectarismo e o despotismo; respeitarem as religiões, seus dogmas, doutrinas e princípios; emitirem, livremente, opiniões e permitirem que todos sejam livres e vivam em igualdade e fraternidade, independentemente de cor, credo religioso, condição sócio-econômica e posicionamento político ideológico. Enfim, livres e de bons costumes para poderem se aproximar de Deus e com Ele serem Um e Único. Em segundo plano, dizer que os dois pilares fundamentais que sustentam a Maçonaria são a Missão e a Liderança. Quando estes dois pilares são robustos, a Instituição normalmente vai bem. Quando um dos dois pilares tem problemas, a Instituição vai mal, e quando os dois pilares têm problemas, a Instituição corre sérios riscos de abatimento de colunas.
No primeiro cenário, entendo ser preciso considerar a função do maçom e da maçonaria na sociedade. Para tanto vou apontar como objetivo da maçonaria e do maçom, como sendo a evolução da espécie humana e a promoção do bem-estar social da humanidade pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela prática desinteressada dos regramentos éticos e morais, e pela investigação da verdade de forma consciente e incondicional. Em suma, neste cenário, a maçonaria pugna pelo aperfeiçoamento permanente do maçom e, antes de tudo, pelo exercício das práticas consubstanciadas na tríade Liberdade, Igualdade e Fraternidade para o aperfeiçoamento da Humanidade.
No segundo cenário, entendo ser necessário que o próprio maçom esteja atento e compreenda que convive em um mundo globalizado e permanentemente sacudido por correntes de inovações científicas, tecnológicas, sociais, culturais e econômicas diferenciadas por blocos e/ou segmentos estruturais e conjunturais, e que essas mutações, inibidoras e transformadoras do tecido social, estão a exigir do maçom e da maçonaria, assim como dos homens e das organizações sociais, entre outras coisas, adaptações, capacitação, conhecimentos especiais, acesso aos estoques de saberes, e construção de perspectivas de futuro, se não quiserem ficar no meio do caminho na longa marcha em busca do aperfeiçoamento humano. Para tanto, o Maçom deve estar cônscio dos seus direitos, deveres e das ações a serem implementadas pela Maçonaria.
Por fim, e no terceiro cenário, é necessário que o maçom tenha a compreensão da totalidade da obra maçônica em curso, em suas grandes linhas pelo menos. Essa compreensão permitirá cooperar inteligentemente com a grande obra, seja no contexto atual, seja na construção de cenários futuristas. Importa fazer recordar, agora, que o maçom, na conformidade do artigo primeiro da primeira edição das Constituições Maçônica, está obrigado, em virtude do seu título, a obedecer a lei moral; e se compreender bem a arte, não será nunca um estúpido ateu, nem um anti-religioso libertino, e que precisará, ainda, demonstrar seu amor pela Maçonaria [e o amor é ainda a maior das coisas do mundo] e profundo interesse pelas “coisas” da Ordem; demonstrar interesse e dedicação ao estudo da História da Maçonaria e análise do seu processo evolutivo; paciência na busca dos saberes indicados para a construção do conhecimento que interessa à Maçonaria; devotamento ao magistério e instrução aos menos favorecidos pela compreensão do pensamento ideológico concebido; tolerância e respeito ao pensamento e idéias adversas e contraditórias; e, adaptação aos novos paradigmas da sociedade tecnológica.
Aqui quero fazer reportagem ao filósofo Aristóteles, ao místico H. Spencer Lewis, e ao estadista Mikhail Gorbachev, que em momentos distintos proclamaram: tudo tem sua função, e é a excelência dessa função que constitui sua maior virtude; o homem está aqui para aprender; e as revoluções modernas se farão com as forças das idéias e não mais com as armas. O grande desafio maçônico que se apresenta no momento é a superação dos cenários apresentados, e a resposta a esse desafio é a educação. Entendo a educação como pilar necessário à formação do homem maçom, e creio que a educação e o conhecimento da verdade conduzem à reflexão, e esta, por sua vez, aponta as imperfeições à nossa volta e conduz à compreensão da necessidade de mudança de paradigmas, e consequentemente, a necessidade de aperfeiçoamento e de progresso na senda da evolução humana. Em outras palavras, a ascese humana passa pela formação de massa crítica rumo à perfeição, e a razão da existência humana aqui na Terra é a busca da perfeição, e o ideal humano é tornar-se perfeito, assim como o GADU é perfeito.
Outros Enfoques
Me curvo à idéia de que a busca da perfeição e da existência de um mundo melhor, dirigido por homens iniciados e/ou iluminados, pode muito bem representar uma utopia, mas sendo este o plano de evolução social, cultural e política da Maçonaria, e sendo esse entendimento no sentido de que os maçons assumam os destinos das sociedades, aos maçons impõe-se, antes e depois de toda e qualquer consideração, serem conhecedores e partícipes desse ideal, e para tanto, requer-se que sejam incorruptíveis, instruídos, livres pensadores e excelentes formadores de opiniões, verdadeiros construtores sociais e instrumento adequado para efetivar as transformações sociais requeridas, e ainda, sejam capazes de aperfeiçoar-se, de instruir-se e disciplinar-se constantemente na Arte Real, sem prejuízo da conveniência de conviverem harmoniosamente com centenas de milhares de seres díspares, e que possam, a despeito de todas dificuldades, serem destacado por palavras, obras e exemplos de vida, e sobremodo, que ostentem, sem envergonhamento, o lema mais sagrado da Ordem Maçônica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Assim, urge apontar, pelo menos três enfoques. Primeiro, só se pode almejar uma Maçonaria forte se as Lojas estiverem igualmente fortalecidas. Isto significa que é inútil tentar fortalecer a Maçonaria sem o fortalecimento das Lojas. Segundo, é inútil tentar aumentar o número de obreiros nas Lojas, se o potencial de conhecimentos intelectuais, potencialidades e criatividade dos maçons for baixo. Isto significa dizer que o fortalecimento da Ordem dependerá mais de maçons sábios, criativos e conhecedores da missão e liderança da maçonaria do que de pessoas brilhantes. Julgo que o acesso ao conhecimento numa sociedade com baixa criatividade tende a travar ou limitar a produção de novas idéias. Terceiro, só se pode almejar uma maçonaria forte se as lojas forem fortes e se a criatividade dos maçons for suficiente alta. Isto significa que é inútil tentar apropriar-se de saberes e conhecimentos sem estimular o crescimento da criatividade.
Nada mais urgente, portanto, que a necessidade de apropriação de conhecimentos e a disseminação de experiências interativas nos diversos campos de atuação do maçom e da maçonaria. Nada mais certo, por outro lado, que a capacidade dos maçons em promoverem e concretizarem, presentemente, este salto cultural que colocará a Ordem dos Maçons no primeiro degrau da promoção dos seus sublimes ideais. Depressa – Aprendei e Ensinai.
Resumo
O presente artigo procura mostrar que maçons e maçonaria, embora partes integrantes de um mesmo contexto estrutural e conjuntural, são instrumentos distintos no processo de transformação da sociedade, sugerindo que maçons e maçonaria possuem atuação destacada e concentrada nas dimensões regionais, institucionais e individuais. O artigo apresentou, em primeiro plano, uma abordagem conceitual diferenciada, sem confrontação ou desqualificação dos conceitos consagrados pelos usos e costumes. E, na seqüência, considerou a função do maçom e da maçonaria na sociedade, destacando o papel do maçom como ente/agente de transformação social, mas apontando que este necessita, peremptoriamente, apropriar-se do conhecimento maçônico e de outros saberes planetizados. Por fim, apresenta propostas/sugestões para formação de massa crítica no seio da Maçonaria, associando a necessidade de apropriação de conhecimentos, chamando a atenção, não obstante, para o fato de que até mesmo para apropriar o conhecimento gerado alhures, é preciso estar preparado para tal mister. E, a guisa de conclusão, assinala como urgente a necessidade de se cuidar da educação do maçom, sem que se seja, obrigatoriamente, livresco e repetitivo. Trata-se, portanto, e antes de mais nada, de um modo todo especial de ser e de fazer, em face da Maçonaria.

* Luiz Gonzaga Rocha – 33, Presidente da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal e membro da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 24 – Brasília/DF.
NOTA: Permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.

Saber é Poder

Saber é Poder

Ceratiano

Tive oportunidade de ler, há alguns anos, um artigo intitulado “Por que os Maçons não Lêem?”, de autoria do renomado Irmão Kurt Prober. Referido artigo fora publicado, originalmente, pela Revista Maçônica A Trolha, pelos idos do ano de 1979, se não me falha a memória, e esse mesmo artigo vi republicado por inúmeras vezes em diversas revistas e jornais de circulação entre os maçons. Eu mesmo, com muita satisfação, o republiquei, em parte é verdade, no nosso jornal “O Aleijadinho” n.º 30, que circulou no mês de novembro de 1999.
No citado artigo, o nosso Irmão Kurt Prober já apontava o desinteresse dos maçons pela leitura singular dos assuntos e temas relativos à Maçonaria, destacando que dentre as razões pelas quais os maçons não gostam de ler encontra-se a falta de interesse, entusiasmo, motivação íntima ou simples preguiça intelectual, e, em tom jocoso disse da existência de bibliotecas maçônicas em diversas lojas e potências, asseverando poder comprovar que “entra ano e sai ano sem sair um único livro” por empréstimo aos Irmãos, evidenciando, sem qualquer resquício de dúvida, que “maçom não gosta de estudar, estudar que é sinônimo de ler, e muitos menos gosta de escrever”. É como disse aquele escritor: habituaram-se os nossos irmãos a “não estudar e a não ler coisa alguma”, preferindo discutir com veemência sobre o “disse me disse dos outros”.
Sei, e muitos sabem, que o Irmão Kurt Prober tem razão quando escreveu aquele artigo, e hoje, decorrido todo esse tempo, constato que o quadro ainda não é dos melhores, ou seja, os nossos irmãos continuam não gostando de ler, menos de estudar, e menos ainda de escrever. Hoje, é certo, temos muito mais irmãos estudando, lendo e escrevendo sobre Maçonaria do que antes, mas em contrapartida, temos muito mais lojas, e muito mais livros, jornais e revistas em circulação no meio maçônico, e igualmente, muito mais maçons do que à época em que o Irmão Kurt Prober escreveu seu artigo. Assim, guardadas as devidas proporções, não seria desairoso afirmar que a situação atual é igual ou pior àquela apontada pelo Irmão no final da década de setenta do século passado.
Não pretendo fazer uso destas linhas para reafirmar somente aquela ou essa constatação singular. Em verdade, aqui estou para tentar convencer o meu Irmão e Leitor que “Saber é Poder” e que “aquele que não sabe não pode…!” E com estas singelas palavras pretendo tentar imprimir um selo novo entre os maçons: Vamos ler Maçonaria.
Prefacialmente, é preciso que o Irmão entenda que existe uma regra de ouro a que todos estamos sujeitos; seja na Maçonaria; seja no dia a dia a dia do mundo profano; seja nas relações pessoais mais íntimas ou mais abstratas; seja aqui ou seja na China, Índia ou Japão, e essa regra é a seguinte: “Colhemos sempre o que semeamos”. A literatura de auto-ajuda e até mesma a Bíblia Sagrada faz referências a essa regra de ouro. Veja o que está dito nos Evangelhos de Mateus e de Lucas: “Por acaso colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos cardos” [Mt. 7:16]; “Não se colhe figos de espinheiros, nem se vindimam uvas de sarças”[Lc. 6:43]. “Meus Irmãos, acaso pode uma figueira produzir azeitonas, ou uma videira figos?”, como no dizer de Tiago [3:12]. É claro que só podemos colher o que semeamos. Quem nada semeia nada colhe.
Meu Caro Irmão! Esta regra de ouro não se limita a fazer voltar contra nós as ações injustas que cometemos para com os outros; ela vai mais longe, muito mais longe, e nos trás, sempre, os resultados de cada pensamento que formulamos. Pensar corretamente, me parece, então, ser a chave para compreender e viver harmoniosamente com aquela regra de ouro. E pensar com exatidão significa, primeiramente, levantar o véu da ignorância e contornar o abismo das trevas do desconhecimento das coisas e pessoas à nossa volta.
Ouso dizer que a lei da individualidade do homem maçom, isto é, a sua lei de liberdade, igualdade e fraternidade, é sobremodo a lei do conhecimento. Somos o que pensamos que somos, e o que sabemos é a fonte inesgotável da nossa unidade e do nosso poder. Quem não conhece a si mesmo – não sabe das suas potencialidades – nada pode realizar. É o conhecimento, isto é, o saber, que liberta o maçom dos vícios e do erro, e que torna impossível a manifestação de todas as outras qualidades destruidoras como o egoísmo, a violência, a inveja, o ódio, a malícia, a desconfiança, o espírito de vingança e a tendência para colher onde não se semeou.
Estou plenamente convencido de que a ignorância seja realmente a mãe de todos os vícios e erros que aflige a humanidade, vez que seu princípio mor é nada saber, saber mal o que sabe e saber coisas outras além do que deve saber. Mas que, a despeito disso, o caráter humano sempre se patenteia, e jamais poderá ocultar-se nas trevas da ignorância, pois odeia a escuridão e o abismo do desconhecimento, razão pela qual procura sempre a luz…! A verdade…! O conhecimento…! E todo maçom sabe que quem não tem a luz do conhecimento não pode pensar com retidão, e a sua verdadeira motivação é que sabe que não pode pensar com exatidão se não conhece a verdade das coisas à sua volta, e sobremodo, sabe que não pode contrariar a lei eterna por meio da qual colhemos sempre o que plantamos.
Também estou convencido de que “Saber é Poder”, e entendo que a faculdade de conhecer e a capacidade de pensar com retidão envolve dois princípios que devem ser observados por todos os maçons e por todos aqueles que almejam o poder. Primeiro, para pensar com exatidão é preciso ter o saber que permitirá separar os fatos das meras informações e distinguir entre os fatos aqueles que são importantes daqueles sem importância, ou os de relevo dos sem destaque. Somente procedendo assim poderemos alcançar a verdade e pensar com exatidão, e assim, seremos homens, maçons, pais, esposos e filhos melhores do que somos. Segundo, conhecendo [sabendo] o que devemos conhecer [saber] estaremos munidos da alavanca com a qual poderemos mover o mundo, empregando apenas as pontas dos dedos, ao passo que o ignorante [aquele que não digeriu o conhecimento, isto é, o saber] não será capaz de remover empregando toda a sua força.
O caminho – a chave dessa alquimia mental – é ler e estudar, ler e estudar bastante, e estudar é sinônimo de ler, assim o saber vira poder e a trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade, lema tão caro à Maçonaria deixará de ser só retórica. Vamos Ler Maçonaria. Saber é Poder. Quem nada sabe nada pode.
Para finalizar fico a me perguntar e deixo a pergunta solta no ar. E agora, “Por quê não lêem…?” Confesso que não tenho uma resposta convincente e nem encontro justificativas para justificá-los. Como bem frisou o Irmão Kurt Prober, isto é outra página da história, e como ele, faço votos que cada um consiga responder esta pergunta indiscreta, pelo menos para si mesmo. Da minha parte fico satisfeito se conseguir ser lido pela metade da metade dos maçons que ainda se dão ao trabalho de ler alguma coisa.

*Luiz Gonzaga da Rocha – MM – 33. Membro da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal; membro do Real Club Arco do Templo e membro da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 24 – Brasília/DF.

O Ouro dos Alquimistas

Os Alquimistas
São descritos como aqueles indivíduos que, através de complicadas operações alquímicas, transmutavam metais inferiores em ouro e prata. O propósito fundamental da alquimia era produzir ou encontrar a Pedra Filosofal, mais conhecida como elixir da longa vida, pó de projeção e tintura, e também referenciada como a antiqüíssima, a secreta ou desconhecida, natural, incompreensível, celestial, abençoada, e Sagrada Pedra dos Sábios, e, ainda, distinguida com outras denominações. A prova da posse da Pedra Filosofal era a capacidade do alquimista em transformar um metal grosseiro em ouro ou prata, ou seja, criar o ouro e a prata por meios artificiais. A transmutação de um metal qualquer em ouro ou prata era visto como marca de sucesso, mas o poder transformador residia na Pedra Filosofal, propriamente dita, que era o verdadeiro agente da transmutação material.
A grande arte do alquimista era, portanto, ativar um processo que transformaria uma primeira substância ou matéria-prima na Pedra Filosofal, e com a sua posse estaria apto a realizar a Magnum Opus [Grande Obra]. A tradição alquímica e a metalurgia sagrada estão repletas de exemplos e de explicações sobre as conquistas desses feitos gloriosos, contudo, o segredo da arte transmutatória jamais foi revelado publicamente. Sem sombras de dúvidas, os alquimistas que descobriram ou conheceram a famosa Pedra foram unânimes em guardar o segredo da chave iniciática com o selo do silêncio, e os muitos textos que foram escritos estavam [e ainda estão] permeados de contradições e termos obscuros, quando não repletos de declarações enigmáticas, enloquecedoras referências e segredos irreveláveis, ao que parece, para levar os adeptos a um grau mais além, ou para confundir totalmente àqueles que estavam abaixo do nível para o qual o texto foi escrito. Observe a fundamentação exposta por Michel Sendivogius, um dos que, sabidamente, realizou a Grande Obra: “É pedra e não é pedra; é chamada pedra por sua semelhança; primeiramente, porque seu minério é verdadeiramente pedra no princípio, quando é tirada das cavernas da terra: é matéria dura e seca que pode reduzir-se a pequenas partes e que se pode esmagar à maneira de uma pedra. Segundo que, depois da destruição de sua forma, que não é senão enxofre fétido, que é preciso antes tirar-lhe e, depois da destruição destas partes, que haviam sido composta e unidas pela natureza, é necessário reduzi-la a uma essência única, cozendo-a docemente segundo a natureza em uma pedra incombustível, resistente ao fogo e fusível como cera; o que ela não pode fazer senão retornando à sua universidade” [Michel Sendivogius, in A Nova Luz Química].
Assim, a Pedra Filosofal, nunca teve a sua verdadeira natureza revelada por nenhum dos alquimistas. Ela foi descrita como sendo a verdade, mais certa do que a própria certeza; o arcano de todos os arcanos; a virtude e eficácia divinas, que são ocultas dos tolos; a meta e o fim de todas as coisas sob o céu; o maravilhoso epílogo de conclusão de todos os labores dos sábios; a essência perfeita de todos os elementos; o corpo indestrutível que nenhum elemento pode ferir; a quintessência; o duplo e o vivo mercúrio que tem em si próprio o espírito celestial; a cura para todos os metais defeituosos e imperfeitos; a luz perpétua; a panacéia para todas as doenças; a gloriosa Fênix; o mais precioso de todos os tesouros; e o principal bem da Natureza, dentre outros qualificativos. O seu poder não era somente de ser um agente de transformação nos reinos físicos, mas também no reino espiritual, e o ouro produzido era mais que um simples metal, era, em verdade, um princípio filosófico: um poder que o verdadeiro Alquimista reconhecia e procurava representar como matéria-prima da sua arte.
A Grande Revelação
O termo alquimia originou-se do árabe ul-khemi, significando química da natureza ou ciência da natureza, e essa química ou ciência pode ser compreendida sob dois aspectos distintos: o terrestre e o espiritual. No aspecto terrestre ou material, o alquimista visava, tão somente, a transmutação de metais grosseiros em ouro ou prata, por um processo de enobrecimento do material inferior em consonância com as energias-astrais, o que implicava na dominação e controle do ciclo transmutatório: ferro-cobre-chumbo-estanho-mercúrio-prata-ouro. No aspecto espiritual, o objetivo visado era a transmutação do próprio alquimista, ou seja, o ciclo ferro-cobre-chumbo-estanho-mercúrio de sua personalidade é que sofreria mudanças radicais no crisol das experiências alquímicas até transformar-se no puro ouro espiritual. Neste contexto, o grande laboratório alquímico é o próprio Homem. Este artigo dedica-se, exclusivamente, à Alquimia Espiritual.
Antes de comunicar o grande segredo do conhecimento alquímico espiritual, desejo que analise e considere as palavras de Artephius endereçadas aos que procuravam a Pedra Filosofal. Disse ele: “Pobre idiota! Seria tu bastante simples para creres que vamos ensinar-te aberta e claramente o maior e o mais importante dos segredos, e tomar nossas palavras ao pé da letra?” Analise as palavras de Nicolas Flamel: “Eu te revelo que a nossa arte só é revelada pelo esforço e é cheia de mistérios e tu, pobre idiota, és tão crédulo que chegas a pensar que nós ensinaríamos aberta e claramente o mais importante e maior de todos os segredos, caso tomes ao pé da letra nossas palavras”. Considere e analise, agora, as palavras do Mestre Ascenso Saint Germain – o Hierarca da Era de Aquário: “O significado espiritual de alquimia é, simplesmente, composição do todo[all-composition], termo que pressupõe a existência duma relação entre o todo da criação e as partes que o compõem. Quando devidamente compreendida, a alquimia trata, portanto, do poder consciente de controlar mutações e transmutação no seio da Matéria e da energia, e até dentro da própria vida”. Por fim, vejam as minhas palavras, escritas há cerca de três transcorridos anos, quando discorri sobre Nicolas Flamel para os leitores do Jornal Egrégora: “Não seja idiota em tentar descobrir letra por letra e palavra por palavra o conteúdo dos textos alquímicos. Lembre-se, antes, que o estudo ao pé da letra mata, enquanto que o espírito e a reflexão vivificam”. Naquele artigo fiz a revelação que reproduzirei agora, mas à época, a mesma verdade foi apresentada da seguinte forma: A Pedra da Alquimia é 5 [9+5+4+5 = 23 = 5], o fogo secreto é 8 [5+4+5+8+7+9+1 = 39 = 12 = 3 + 9+5+4+2+1+2 = 23 = 5, e 3+5 = 8], e a matéria única e principal da Grande Obra é 8 [9+5+3+5+4 = 26 = 8]. De fato, agora entendo tratar-se de uma revelação incompreensível e que nada revelou.
Para fazê-lo coerentemente, hoje, declaro que estou movido por outros sentimentos e, devidamente autorizado, revelo o grande segredo procurado por muitos sábios e, quem tiver olhos para ver, que veja os números e as letras da Alquimia Espiritual: A Pedra Filosofal da Alquimia Espiritual é o sexo e o seu número é 5; o fogo secreto é a energia sexual e o seu número é 8; e a matéria única e principal da Grande Obra é o sêmen e o seu número é 8. Nestes exatos termos, a matéria-prima da Alquimia Espiritual é a energia seminal masculina e feminina combinados; o sal, o enxofre e o mercúrio; o Sol e a Lua no dizer dos alquimistas. O sêmen é o Mercúrio dos Mercúrios, que é a mesma água-viva contida nas glândulas sexuais e a Água Celestial mencionada nos vários Livros Bíblicos [v. Gn. I:1-2; Sl 23:1-6 e 104:3-6; Jr. 17:13 e Ap. XXII:1 e 17]. Sei que esse espaço é por demais exíguo para tratar com mais acuidade desse tema, ma não posso deixar de lembrar, ainda que de passagem, a maravilhosa Canção de Salomão [Cântico dos Cânticos], na minha concepção, um dos mais gloriosos poemas de amor escritos e com muitas informações sobre a alquimia espiritual e magia sexual oculta nas entrelinhas, principalmente onde Salomão exclama: “Quoe est illa quoe procedit sicut aurora consurgens, innixa super sponsum?” [Quem é aquela que surge qual aurora sobre seu esposo?].
Como já se disse alhures, “a pedra que os construtores rejeitaram” [Sl. 118: 22]; o ingrediente misterioso do universo, comum a todos os seres humanos; a magnésia universal fartamente manuseada por ricos e pobres todos os dias, a matéria encontrada no campo, na aldeia, na cidade, e em todas as coisas criadas por Deus; o Coagula e Solve; o Aleph da Cabala; o Alkaest dos Filósofos; a Força Kundalínica; a Água da Vida que mata toda a sede [e quem bebe dessa água jamais voltará a ter sede] é o presente de Deus aos homens, e o amor é a base desse presente Divino, constituindo a ascensão da mulher a satisfação maior desse amor. A energia sexual é a mais poderosa e sutil força que o organismo humano produz. Este é o resultado do sexo praticado corretamente e de acordo com a Lei. Aquele que não conseguir entender assim só conseguirá encher a cabeça de palavras, signos e alegorias extravagantes. Irmão! É necessário aprender a ver além das simples aparências, além da ilusão e da articulação das palavras, então e só então a Alquimia se apresenta não como simples arte ou ciência que ensina a realizar a transmutação de metais inferiores em metais nobres, mas como uma ciência sólida e verdadeira que ensina a conhecer o centro de todas as coisas, o que na linguagem esotérica se denomina “O Sopro Divino” que está presente na raiz da “Consciência do Eu”, onde cada parte é parte de um todo.
A título meramente ilustrativo reproduzo um relato de Eliphas Levi a propósito da harmonia do binário homem-mulher, o binário perfeito, onde a realização criadora do equilíbrio universal, a manifestação de toda idéia por toda forma e a identificação dos sexos se faz presente em um casamento verdadeiramente indissolúvel. O relato diz que, um dia, Cristo interrogado sobre a época de seu reino respondeu através destas misteriosas palavras: “Quando dois forem um, quando o que é interior for exterior e quando o homem com a mulher não forem mais nem homem nem mulher”. Este oráculo do Mestre não se encontra os Evangelhos; mas ele é relatado por um dos escritores apostólicos: o papa São Clemente [Eliphas Levi, in Curso de Filosofia Oculta, 1984, pág. 61], ou seja, Eliphas Levi conhecia este segredo mas evitou pronunciá-lo. Outro relato muito interessante de Eliphas Levi é o que narra uma das parábolas mais misteriosas do Mestre Jesus sobre “as dez virgens: cinco sábias e cinco loucas”, mas esta ficará para outra oportunidade.
O Triunfo Hermético
A meu juízo, o triunfo hermético consiste não no sucesso da transmutação de metais grosseiros em ouro e prata, por um processo de enobrecimento do material, mas na transmutação do próprio alquimista, ou seja, na transmutação dos metais grosseiros da personalidade no crisol das experiências pessoais até transformar-se no puro ouro do espírito. Tenho comigo que a Unidade de Deus se manifesta e se resume na unidade do homem e que Deus completa o homem pela mulher. Tenho comigo, ainda, que Deus, o Grande Alquimista do Universo, ao nos criar à Sua imagem e semelhança, colocou dentro de cada ser humano um grande laboratório alquímico, o maior e mais completo laboratório que se possa conceber, para que a encarnação Deus, Homem, Homem-Deus se realize na perfeição da harmonia homem-mulher. E, não é sem razão que a Flâmula Alquímica traga como divisa a célebre frase por demais conhecida dos maçons e dos rosa-cruzes – V.I.T.R.I.O.L. – como iniciais da fórmula iniciatória. A expressão Vitriol ou Vitríolo, traduzido como “Visitetis Interiora Terrae Rectificando Invenietis Occultum Lapidem, Veram Medicinam”, ou seja, “Visita o interior da Terra e por retificação descobrirás a Pedra oculta, Verdadeira Medicina”, explicada assim por Basílio Valentim: “Percorre as entranhas do corpo humano, e rectificando encontrarás [a pedra oculta] o conhecimento de si mesmo e o conhecimento do mundo”. A relação pode parecer meio forçosa, mas um estudo mais amoroso poderá revelar outras interpretações muito interessantes.
Meu Irmão! Com letras e números revelei o segredo da alquimia espiritual, o segredo dos dois Mercúrios que contêm as duas tinturas, a matéria-prima da Magnum Opus. Assim, o oculto se tornou manifesto, entrementes, declaro, para conhecimento público, que a este segredo tive acesso muito recentemente. A descoberta mudou significativamente minha vida e minha visão de mundo, e espero que possa emprestar novo significado à Sua, mas devo declarar, por dever de consciência, que outros já revelaram este segredo a seu modo e com outras palavras, mas o que o fez diretamente e com todas as letras foi Sérgio de Souza Carvalho, em sua obra “Tratado de Alquimia Gnóstica”, com o consentimento e autorização de membros da Grande Fraternidade Branca. O alquimista Alexandre Sethon, o Cosmopolita, por exemplo, já havia feito esta revelação de forma muito espirituosa, por engenhosa alegoria, quando discorreu sobre a purificação e a animação do Mercúrio: “hoc fiet” disse ele, “si seni nostro aurum et argentum deglutire dabis, ut ipse consumat illa, et tandem ille etiam moriturus comburatur”. Terminando por descrever o magistério nesses termos: “cinare ejus spargantur in aquam, coquito eam donec satis est, et habes medicinam curan di lepram”. O mesmo Cosmopolita disse que o Mercúrio é a sua “água”, à qual denominou “aço e ímã”, e acrescentou, para maior confirmação do que acabo de revelar através de operações literais e numéricas redutivas: “Si undecies coit aurum cum eo, emittit suum semen, et debilitatur fere ad mortem usque; concipir chalybs, et generat filum patre clariorem”. E por aqui encerro minhas revelações herméticas.
Conclusão
Meu Irmão, bem sei que você pode não acreditar no que acaba de ler, mas tudo ficará claro se bem refletires. Não quero e não devo forçar a superação dessa barreira espiritual pessoal. Entrementes, sei que os verdadeiros alquimistas e filósofos não desprezaram levianamente esta revelação importante da Divina Energia Criadora no Homem. E, para encerrar este articulado, almejo que entenda que somos filhos Deus, a Quem denominamos Grande Arquiteto do Universo, e que somos, como Ele, Sementeiras Divinas. E lembre-se! Entenderemos melhor o mundo quando entendermos a nós mesmos. Por fim, observe, quando tiver oportunidade, o Símbolo da Pedra Filosofal.
Bibliografia Selecionada
Tratado de Alquimia Gnóstica [Sergio de Souza Carvalho, Sol Nascente, São Paulo, s/d]; O Livro das Figuras Hieroglíficas [Nicolas Flamel, ed. Três, Biblioteca Planeta, vol. 16, Rio de Janeiro, 1973]; O Tesouro dos Alquimistas [Jacques Sodoul, ed. Hemus, São Paulo, 1970]; O Triunfo Hermético [Limojon de Saint-Didier, ed. L’Oren, São Paulo, 1972]; A Alquimia e seus Mistérios [Cherry Gilchrist, ed. Ibrasa, São Paulo, 1988]; A Tradição Hermética [Serge Hutin, ed. Pensamento, São Paulo, 1979]. Iniciação à Alquimia [Alberto Magno, ed. Nova Era, Rio de Janeiro, 2000].
*Luiz Gonzaga da Rocha – historiador. Presidente da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal; Membro da Academia de Letras, Ciências e Artes Maçônicas do Brasil e do CERAT. Críticas e sugestões: luizgros@brturbo.com.br.
NOTA: Permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.