domingo, 25 de março de 2012

Maçom e Maçonaria

Maçom e Maçonaria

Introdução

Sabe o Grande Arquiteto do Universo quanto papel e tinta já foram utilizados para traçar e apontar o perfil do maçom e da maçonaria. E mesmo as mentes mais aguçadas parecem não se dar contas de que o retrato falado do maçom pouco condiz com o arcabouço idealizado como justo e perfeito. Como os fatos admitem variegadas considerações, assumo o risco de traçar estas linhas e submetê-las à consideração dos irmãos/leitores.
Neste artigo, pretendo abordar três tópicos interconectados. Em primeiro lugar, buscarei mostrar, conceitualmente, maçom e maçonaria. Em segundo lugar, apresentarei algumas considerações sobre a função [missão e liderança] do maçom e da maçonaria na sociedade. E por fim, tratarei de apresentar sugestões para formação e desenvolvimento da massa crítica maçônica institucional, apontando a necessidade peremptória da educação maçônica como esteio de uma Maçonaria forte.
Maçom e Maçonaria
Imagino que a indagação mais interior formulada por não-maçons e até mesmo por muitos maçons, seja sobre os conceitos de maçom e maçonaria. Procurando fugir dos conceitos usuais e que se alteram em cada fração de tempo, quero reafirmar um conceito antigo, onde se diz, com todas as letras, que a maçonaria é um terreno mental onde se defrontam todas as opiniões, todas as crenças, todas as idéias sérias e de boa fé, para discussão pacífica, e de cujo combate fraternal resultem novas verdades a juntarem-se às já descobertas, contribuindo, assim, para o incremento do espírito humano, e para renascer o bem-estar da humanidade [Chainé d’Union, 1889]. Nesse contexto, o maçom seria o ente/agente dessa conceituação e, filosoficamente, seria um crente desse estado de espírito. Por outro lado, os nossos rituais definem Maçonaria como sendo uma Instituição que tem por objetivo tornar feliz a Humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, e pelo respeito à autoridade e a religião de cada um. Neste conceito, o maçom seria, simplesmente, o membro da Ordem maçônica, seja ele ativo ou inativo, regular ou irregular, enfim, quero dizer: Maçom é o homem Iniciado na Ordem Maçônica.
Manoel Arão [História da Maçonaria no Brasil, p. 7], consubstanciando o pensamento de muitos livres pensadores, externou, desde meados da década de vinte do século passado, que o conceito de maçonaria, e por extensão, o conceito de maçom, não pode ter uma fórmula precisa de definição, por encerrar, em si, o princípio de perfeição absoluta que se contém no ente preexistente e fora do círculo dos nossos próprios conhecimentos e do conceito moral em que somos aptos a definir. Entendendo que a idéia de maçom e de maçonaria transcendia a nossa própria contingência que, por sua própria natureza, põe um limite nas relações de indivíduos a fenômenos e de maçom a maçonaria. Esse agregado de idéias filosóficas conduz a Fichte [J. G. Fichte, História da Maçonaria, p. 73/74], quando este, instruindo a Konstant, frisou que a Maçonaria existe em razão de si mesma, e que esta deve ser como é, parte constituinte do absoluto; proclamando o entendimento de que a Ordem dos Maçons existe para manter, para conservar a Maçonaria. Em seu entendimento, a expressão Maçonaria indica a associação, e esta não pode ser considerada fim a si própria, mas apenas meio, pois que a associação, para o fim prefixado, é apenas meio e não pode ser como é, no momento, em sentido absoluto, mas apenas sob as condições de determinada situação no mundo. O maçom neste emaranhado filosófico-conceitual seria aquele que se dispõe a integrar a grande coligação universal que é a Maçonaria.
Devo dizer, ainda, a título de mero esclarecimento, que o conceito de maçom pode ser compreendido em diversos contextos ou planos, e aqui quero me concentrar nos planos semântico [aquele onde os signos são conceituados com base em um contexto determinado = maçom nominal] e pragmático [aquele que materializa o relacionamento que se estabelece entre o signo e seus utentes = maçom real], para conceituar o maçom como alguém que foi iniciado em uma loja regular, justa e perfeita. E, parafraseando Francisco de Assis Carvalho [Xico Trolha], Antônio do Carmo Ferreira [Ducarmo] e outros, optei por conceituar Maçonaria como sendo o Centro de União dos Maçons.
Missão e liderança
Como é de todos sabido, a maçonaria enquanto Organização de Construtores Sociais exerceu forte influência na evolução dos povos civilizados, e no presente, lamentavelmente, assiste pacífica e silenciosamente, a falência do tecido social que lhe fornece o principal instrumento de sua ação social: o maçom. Adianto que a missão e a liderança da Maçonaria e de Maçons no processamento histórico da Humanidade é inconteste e indiscritível, o que dispensa maiores considerações. Neste artigo, pretendo considerar, discutir e apresentar meus argumentos em três cenários.
Preliminarmente, quero apresentar dois posicionamentos. Em primeiro plano, externar o entendimento de que a maçonaria nasceu para auxiliar os homens a viverem em harmonia; serem bons e honrados; acreditarem em Deus como Ser Supremo, Poderoso, Criador de todas as coisas; combaterem, sem tréguas, o fanatismo, a superstição, os vícios e a ignorância em todas as suas formas, e ainda, para lutarem contra o nepotismo, o sectarismo e o despotismo; respeitarem as religiões, seus dogmas, doutrinas e princípios; emitirem, livremente, opiniões e permitirem que todos sejam livres e vivam em igualdade e fraternidade, independentemente de cor, credo religioso, condição sócio-econômica e posicionamento político ideológico. Enfim, livres e de bons costumes para poderem se aproximar de Deus e com Ele serem Um e Único. Em segundo plano, dizer que os dois pilares fundamentais que sustentam a Maçonaria são a Missão e a Liderança. Quando estes dois pilares são robustos, a Instituição normalmente vai bem. Quando um dos dois pilares tem problemas, a Instituição vai mal, e quando os dois pilares têm problemas, a Instituição corre sérios riscos de abatimento de colunas.
No primeiro cenário, entendo ser preciso considerar a função do maçom e da maçonaria na sociedade. Para tanto vou apontar como objetivo da maçonaria e do maçom, como sendo a evolução da espécie humana e a promoção do bem-estar social da humanidade pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela prática desinteressada dos regramentos éticos e morais, e pela investigação da verdade de forma consciente e incondicional. Em suma, neste cenário, a maçonaria pugna pelo aperfeiçoamento permanente do maçom e, antes de tudo, pelo exercício das práticas consubstanciadas na tríade Liberdade, Igualdade e Fraternidade para o aperfeiçoamento da Humanidade.
No segundo cenário, entendo ser necessário que o próprio maçom esteja atento e compreenda que convive em um mundo globalizado e permanentemente sacudido por correntes de inovações científicas, tecnológicas, sociais, culturais e econômicas diferenciadas por blocos e/ou segmentos estruturais e conjunturais, e que essas mutações, inibidoras e transformadoras do tecido social, estão a exigir do maçom e da maçonaria, assim como dos homens e das organizações sociais, entre outras coisas, adaptações, capacitação, conhecimentos especiais, acesso aos estoques de saberes, e construção de perspectivas de futuro, se não quiserem ficar no meio do caminho na longa marcha em busca do aperfeiçoamento humano. Para tanto, o Maçom deve estar cônscio dos seus direitos, deveres e das ações a serem implementadas pela Maçonaria.
Por fim, e no terceiro cenário, é necessário que o maçom tenha a compreensão da totalidade da obra maçônica em curso, em suas grandes linhas pelo menos. Essa compreensão permitirá cooperar inteligentemente com a grande obra, seja no contexto atual, seja na construção de cenários futuristas. Importa fazer recordar, agora, que o maçom, na conformidade do artigo primeiro da primeira edição das Constituições Maçônica, está obrigado, em virtude do seu título, a obedecer a lei moral; e se compreender bem a arte, não será nunca um estúpido ateu, nem um anti-religioso libertino, e que precisará, ainda, demonstrar seu amor pela Maçonaria [e o amor é ainda a maior das coisas do mundo] e profundo interesse pelas “coisas” da Ordem; demonstrar interesse e dedicação ao estudo da História da Maçonaria e análise do seu processo evolutivo; paciência na busca dos saberes indicados para a construção do conhecimento que interessa à Maçonaria; devotamento ao magistério e instrução aos menos favorecidos pela compreensão do pensamento ideológico concebido; tolerância e respeito ao pensamento e idéias adversas e contraditórias; e, adaptação aos novos paradigmas da sociedade tecnológica.
Aqui quero fazer reportagem ao filósofo Aristóteles, ao místico H. Spencer Lewis, e ao estadista Mikhail Gorbachev, que em momentos distintos proclamaram: tudo tem sua função, e é a excelência dessa função que constitui sua maior virtude; o homem está aqui para aprender; e as revoluções modernas se farão com as forças das idéias e não mais com as armas. O grande desafio maçônico que se apresenta no momento é a superação dos cenários apresentados, e a resposta a esse desafio é a educação. Entendo a educação como pilar necessário à formação do homem maçom, e creio que a educação e o conhecimento da verdade conduzem à reflexão, e esta, por sua vez, aponta as imperfeições à nossa volta e conduz à compreensão da necessidade de mudança de paradigmas, e consequentemente, a necessidade de aperfeiçoamento e de progresso na senda da evolução humana. Em outras palavras, a ascese humana passa pela formação de massa crítica rumo à perfeição, e a razão da existência humana aqui na Terra é a busca da perfeição, e o ideal humano é tornar-se perfeito, assim como o GADU é perfeito.
Outros Enfoques
Me curvo à idéia de que a busca da perfeição e da existência de um mundo melhor, dirigido por homens iniciados e/ou iluminados, pode muito bem representar uma utopia, mas sendo este o plano de evolução social, cultural e política da Maçonaria, e sendo esse entendimento no sentido de que os maçons assumam os destinos das sociedades, aos maçons impõe-se, antes e depois de toda e qualquer consideração, serem conhecedores e partícipes desse ideal, e para tanto, requer-se que sejam incorruptíveis, instruídos, livres pensadores e excelentes formadores de opiniões, verdadeiros construtores sociais e instrumento adequado para efetivar as transformações sociais requeridas, e ainda, sejam capazes de aperfeiçoar-se, de instruir-se e disciplinar-se constantemente na Arte Real, sem prejuízo da conveniência de conviverem harmoniosamente com centenas de milhares de seres díspares, e que possam, a despeito de todas dificuldades, serem destacado por palavras, obras e exemplos de vida, e sobremodo, que ostentem, sem envergonhamento, o lema mais sagrado da Ordem Maçônica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Assim, urge apontar, pelo menos três enfoques. Primeiro, só se pode almejar uma Maçonaria forte se as Lojas estiverem igualmente fortalecidas. Isto significa que é inútil tentar fortalecer a Maçonaria sem o fortalecimento das Lojas. Segundo, é inútil tentar aumentar o número de obreiros nas Lojas, se o potencial de conhecimentos intelectuais, potencialidades e criatividade dos maçons for baixo. Isto significa dizer que o fortalecimento da Ordem dependerá mais de maçons sábios, criativos e conhecedores da missão e liderança da maçonaria do que de pessoas brilhantes. Julgo que o acesso ao conhecimento numa sociedade com baixa criatividade tende a travar ou limitar a produção de novas idéias. Terceiro, só se pode almejar uma maçonaria forte se as lojas forem fortes e se a criatividade dos maçons for suficiente alta. Isto significa que é inútil tentar apropriar-se de saberes e conhecimentos sem estimular o crescimento da criatividade.
Nada mais urgente, portanto, que a necessidade de apropriação de conhecimentos e a disseminação de experiências interativas nos diversos campos de atuação do maçom e da maçonaria. Nada mais certo, por outro lado, que a capacidade dos maçons em promoverem e concretizarem, presentemente, este salto cultural que colocará a Ordem dos Maçons no primeiro degrau da promoção dos seus sublimes ideais. Depressa – Aprendei e Ensinai.
Resumo
O presente artigo procura mostrar que maçons e maçonaria, embora partes integrantes de um mesmo contexto estrutural e conjuntural, são instrumentos distintos no processo de transformação da sociedade, sugerindo que maçons e maçonaria possuem atuação destacada e concentrada nas dimensões regionais, institucionais e individuais. O artigo apresentou, em primeiro plano, uma abordagem conceitual diferenciada, sem confrontação ou desqualificação dos conceitos consagrados pelos usos e costumes. E, na seqüência, considerou a função do maçom e da maçonaria na sociedade, destacando o papel do maçom como ente/agente de transformação social, mas apontando que este necessita, peremptoriamente, apropriar-se do conhecimento maçônico e de outros saberes planetizados. Por fim, apresenta propostas/sugestões para formação de massa crítica no seio da Maçonaria, associando a necessidade de apropriação de conhecimentos, chamando a atenção, não obstante, para o fato de que até mesmo para apropriar o conhecimento gerado alhures, é preciso estar preparado para tal mister. E, a guisa de conclusão, assinala como urgente a necessidade de se cuidar da educação do maçom, sem que se seja, obrigatoriamente, livresco e repetitivo. Trata-se, portanto, e antes de mais nada, de um modo todo especial de ser e de fazer, em face da Maçonaria.

* Luiz Gonzaga Rocha – 33, Presidente da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal e membro da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 24 – Brasília/DF.
NOTA: Permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.

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